quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

make violence, not art

São outros que comandam a tua vida. Todos os dias, todos os momentos da tua vida, tu, quer queiras quer não, circulas por trilhos, estradas, ruas e praças onde procuras o teu caminho, onde estás com os teus amigos, onde comes, bebes, trabalhas, moras, amas e odeias. Esses caminhos foram pensados e estruturados por outros, e orientam-se logicamente por aquilo que orienta esses outros, por aquilo que os move e motiva. As escolhas deles em relação ao espaço condicionam a tua movimentação, criam em ti hábitos e rotinas em relação a esse espaço e delineiam e delimitam os teus movimentos. Diferentes espaços, e acima de tudo diferentes modelos organizacionais do espaço, alimentam distintas formas de socialização (compare-se por exemplo um prédio a uma ilha portuense ou a um pátio lisboeta). Antes de mais, torna-se necessário identificar esse agente condicionador e, de uma forma muito especial, opressor.
Desde o Renascimento que a necessidade espiritual que conduzia à “forma deus” vem evoluindo (1) num novo sentido, mais abstracto e mais profundo, e ao mesmo tempo mais presente – ainda mais presente que o omnipresente deus – e abrangente. À medida que este novo espírito, ou esta nova forma do espiritual, foi substituindo deus, novas formas de crença – o que significa também novas formas de dominação – foram substituindo o velho hábito da oração e do cerimonial do sacrifício para algo muito mais refinado e com muito mais implicações na vida dos indivíduos. Ao passo que antigamente havia horas certas para orar, que ocupavam determinadas partes do dia, hoje o novo hábito de oração, isto é, o trabalho (2), ocupa o grosso do nosso dia, e constitui-se como o objectivo da vida de um crente moderno, na mesma medida em que um crente cristão concebia a oração como médium para ir para o céu, ou seja, para alcançar o seu objectivo, para cumprir a sua vocação (3).
A nova “santíssima trindade” – mercadoria, razão e estado – estrutura e direcciona completamente a vida de todos os indivíduos, e a um nível muito mais penetrante do que o cristianismo o fazia. Hoje qualquer pessoa tem de trabalhar (criar mercadorias, criar valor) para poder comer, o que faz com que qualquer pessoa, mesmo um “descrente”, tenha que “rezar” à forma mercadoria se quiser continuar a viver com segurança. Este é sem dúvida o modelo mais perfeito de controlo que alguma vez uma sociedade concebeu, obrigando a grande maioria da população a viver segundo as leis que esta estabelece.
Como qualquer forma de sociedade, o capitalismo assenta numa desvalorização do indivíduo, levando-a a um nível extremo. Sendo a vida organizada em torno e em função de um ente abstracto, a mercadoria, ao indivíduo cabe-lhe unicamente a tarefa de o servir e de o manter vivo, trabalhando. Assim, no meio social contemporâneo qualquer actividade egoísta é mal vista, e todos os componentes das diversas facções do
capital em luta pelo poder se acusam regularmente de egoísmo, como que criticando uma grande tragédia humana (4).
Ao fervor do trabalho opõe-se a revolta espontânea que sacode individualmente o culto a uma instância superior: o crime. Necessariamente egoísta e destrutivo, o crime aponta-se como a total antítese do mundo social mercantil, e uma importante parte da energia da sociedade volta-se para a prevenção deste – estratégia decididamente privilegiada – e para a sua rápida neutralização.
O urbanismo moderno apresenta-se então como o representante do valor no espaço, isto é, na estruturação do espaço (5). Assim, à medida que a modernidade foi avançando, às cidades (um pouco por todo o mundo) foram-se aplicando planos urbanísticos cuja principal função era razoabilizar o espaço urbano, ajustá-lo à razão (6). Tal como o trabalho anula a acção individual, também o urbanismo anula a expressão individual no espaço. Esta “anulação” varia de forma consoante a cidade em questão e foi progredindo até ao ponto de hoje em algumas cidades – de Barcelona a Florença – ser proibido às pessoas sentarem-se no espaço público. A metrópole contemporânea aparece então como um espaço puramente passivo, onde só a contemplação é permitida, como se de um museu se tratasse. Simultaneamente os habitantes locais são “presos” em bairros sociais ou em zonas residenciais, sendo lentamente expulsos do centro das cidades, que era justamente o espaço por eles ocupado durante séculos.
Tendo o valor absorvido para si todas as esferas da cultura humana, estabeleceu-se para cada uma dessas esferas uma série de infracções específicas, sendo que cada uma é interpretada pelo sistema como uma agressão – ou pior, como um “pôr em causa” – à totalidade do sistema, em maior ou menor grau de gravidade. A sociedade capitalista é de longe aquela que conta o maior número de criminosos, e também aquela que tem o maior número de prisioneiros. Chegando a um nível altamente aperfeiçoado de dominação, a sociedade mercantil apressa-se a tentar, mais-ou-menos subtilmente (7), acabar com qualquer esforço negativo em relação a si própria, criando métodos de detenção e principalmente de correcção e reintegração, numa tentativa de amputar o crime, fazendo os criminosos entrarem para o seu sistema ou privando-os de liberdade. A sociedade moderna mostra-se portanto como a única forma possível de vida, e faz qualquer oposição desaparecer, reintegrando-a no sistema e/ou classificando-a como doentia (8) e explicando-a ideologicamente.
No campo específico do urbanismo e da arquitectura, o crime surgiu sob a forma de graffiti, sendo a sua forma mais pura, por assim dizer, o “tag”. O tag – e com algumas variações e acréscimos também no graffiti
em geral – apresenta-se como a marca de um indivíduo ou grupo (sendo portanto de base puramente egoísta) contra, e este é o ponto fundamental da questão, a arquitectura e os elementos que a compõem: blocos, prédios, paredes, etc. É sintomático que este tenha nascido em bairros sociais: é aqui que o ataque da ideologia urbanista ao indivíduo se faz sentir da forma mais crua e com menos rodeios.
Assim, podemos afirmar que o tag, destrutivo e individualista, é uma forma de crime (9) em primeiro lugar contra a cidade e a sua estrutura (apropriando-se do espaço), e em último contra a sociedade em si e a sua ordem. Assumindo uma postura egoísta e negadora/negativa, os “writers” colocam-se numa posição que pode partir facilmente para a negação não só da ordem capitalista mas de qualquer forma de sociedade (10), já que, apoiando-se nas suas próprias pessoas tendem a recusar qualquer ordem externa (11).
Os transeuntes bons cidadãos do estado que passando por tags manifestam o seu profundo desagrado pela existência destes têm toda a razão em se chatearem e incomodarem. Eles sabem e sentem que um tag, negando a ordem estabelecida e vandalizando-a, está a recusar e a criticar o sentido das suas vidas, o propósito da existência destes. Desta forma, o tag provoca e tem de provocar as mais decididas reacções contra o graffiti por parte da sociedade, e esta nunca o poderia tolerar, porque isso seria tolerar uma falha na engrenagem do sistema, seria deixar dissidentes livremente à solta.


Notas

1- Ao mesmo tempo que esta forma de desejo de deus se transforma e se torna mais e mais abstracta, as velhas figuras patriarcais – no caso do ocidente o deus cristão - vão se desvanecendo nos novos cultos, o que justifica a perda de poder das igrejas e instituições que suportavam esses velhos cultos. Assim se torna possível dizer na época da estabilização do capitalismo que “deus morreu”;

2- Trabalho em termos capitalistas, o que quer dizer que não significa simplesmente mexermo-nos ou criarmos algo. Trabalho capitalista implica a criação de valor e mais-valia;

3- Também nos dias de hoje se fala em vocação, mas aplicando-se ao universo do trabalho. Assim, toda e qualquer pessoa tem vocação para uma qualquer profissão, e todos a devem usar para criar valor (trabalhar), ou seja, para servir o novo deus;

4- Por exemplo, quando um comunista censura um patrão por guardar para si a mais-valia do seu negócio, este censura-o por ser egoísta, isto é, anti-comunitário, apesar de isto não ter nada de egoísta, já que o patrão serve simplesmente o valor, querendo ter o máximo de dinheiro possível, ainda que nunca o venha a utilizar, apenas por devoção;

5- É claro que dificilmente isto se passa a um nível consciente ou muito menos conspirativo. Arquitectos e urbanistas estão eles próprios “às ordens” da lógica capitalista, e é essa lógica que define a suas identidades como arquitectos e urbanistas. Como tal, só lhe é possível agir em função do valor, e as suas actividades pressupõem sempre este deus valor, ou seja, este está implícito nelas;

6- Apesar disto não podemos dizer que a maioria das cidades do mundo tenha uma grande presença do urbanismo racionalista. Isto passa-se porque boa parte do planeta vive ainda aquém do progresso no ocidente, que orienta o mundo e desvenda o caminho a seguir pelas zonas em atraso. Ainda assim devemos admitir que a vocação do capitalismo é a democracia ocidental – com as suas diferentes nuances – o que implica uma tendência geral para eliminar a pobreza e para criar igualdade entre os cidadãos. O período “clássico” (século XIX e inicio do século XX) capitalista – que tinha uma ordem bastante “injusta”, por assim dizer – foi simplesmente uma fase de crescimento deste, e não a sua essência. Assim, os pseudo críticos do capitalismo que, ainda hoje, assentam as suas críticas nas injustiças sociais e acima de tudo económicas nunca deixaram de fazer parte do universo do valor, e portanto não só se incluíram na sua evolução como foram uma parte muito importante desta;

7- Pelo menos no seu lado mais inteligente e eficaz;

8- Daí o nascimento da psicologia – a polícia do comportamento;

9- Ainda que também aqui isto surja de forma inconsciente e mal fundamentada nos meios do graffiti, tal como os arquitectos servem inconscientemente o fetiche mercantil;

10- Aqui aproprio-me dos conceitos de sociedade apresentados por Max Stirner e por Sigmund Freud, ou até por Nietzsche;

11- Isto é obviamente muito relativo. O surgimento dentro do graffiti de estilos formais fechados provoca um forte “comportamento de rebanho”, que contradiz aquilo que dizia acima. Esta seria uma questão a explorar num escrito mais longo.

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